União que não se perde

29/06/2015 11:00

A aliança que fez surgir um dos times mais vitoriosos do município. Conheça a história do Esporte Clube União de Perdidas

 

“Aquela semana parecia um mês até que chegou”. Pedro Erhart era um dentre as dezenas de jovens ansiosos. A promessa feita pelo presidente do time causou furor entre a gurizada. “Ele disse: todo mundo guarda o dinheirinho, que eu vou sair pra cidade essa semana e vou comprar uma bola nova” – lembra Pedro, sobre a promessa feita. Os tempos eram difíceis. O União tentava se reerguer após alguns anos em inatividade. No domingo, estavam todos reunidos embaixo da sombra de cinamomos. “Até que ele apareceu, veio o homem com a bola embaixo do braço”, recorda. A alegria da gurizada foi geral.

O acontecimento marcou um recomeço para o Esporte Clube União de Perdidas. A equipe nascida da aliança entre três times vizinhos se levantava para se tornar Hepta Campeã Municipal de Humaitá.

 

O Esporte Clube União de Perdidas é o clube que mais vezes conquistou o Campeonato Varzeano de Humaitá. A fundação em meados dos anos 1960 dava pistas do que iria ocorrer nas décadas seguintes. A equipe faturou a competição municipal sete vezes. O União carrega esse nome porque surgiu da junção de três equipes de localidades vizinhas. O primeiro time a funcionar no campo da localidade se chamava Esporte Clube 27 de Maio. No entanto, o desejo de montar um selecionado competitivo levou o time a buscar atletas do Sete de Setembro de Caçador e do Fluminense de Vista Alegre, ambas as localidades hoje pertencem ao município de Sede Nova. O espírito que moveu os fundadores foi sintetizado em um nome: União.

O dia e mês da fundação estão estampados no nome da agremiação precursora. O ano, porém, é uma lembrança esquecida na memória de seus fundadores. As fontes consultadas dizem não possuir registro escrito, tampouco fotos da equipe. O aposentado Reinoldo Hanke atualmente conta com 82 anos de idade. “Quando eu vim ali não tinha time, fomos nós que criamos”, comenta. Ele se recorda que veio morar em Humaitá quando tinha 20 anos. Reinoldo se instalou na localidade de Perdidas no ano de 1953.

 

Fragmentos da história

O funcionário público Darci Lottermann também se lembra do início do futebol em Perdidas. Darci era um menino quando sua família se transferiu para a localidade. Segundo ele, a mudança ocorreu em algum dia entre 1957 e 1958. Edegar Lottermann era o patriarca da família que passou a administrar o moinho da comunidade, antes dos Kreher. Em contrapartida, os irmãos Eugen e Ricardo Kreher foram à localidade de Pescador tocar a casa de comércio que era dos Lottermann.

Uma recordação anterior à transferência da família Lottermann para Perdidas aproxima a descoberta do ano em que o 27 de Maio foi fundado. “Eu tenho uma lembrança de um dia que o pai passou ali e eu era pequeno ainda, eu devia ter uns dez anos, e eles estavam arrumando aquele campo”, comenta Darci. Naquele dia ele conta que a família se deslocava até a casa de seu avô, que morava na localidade de Vista Alta. Darci nasceu em 1946. Portanto, o provável ano do fato relatado foi 1956.

O primeiro emprego de Reinoldo em Humaitá foi na propriedade de Eugen Rodolfo Kreher. Ele comenta que antes da construção do campo, no exato espaço onde o gramado foi implantado, existia uma lavoura de mandioca. A lembrança não sai da memória do aposentado, pois era ele que colhia as mandiocas para servir de alimento aos animais. “Quando chovia eu ia ali buscar mandioca de carrinho”, recorda.

 

Quem começou

O campo de futebol que foi construído ficou caracterizado por um declive acentuado. Segundo Reinoldo, a obra foi resultado de um serviço mal feito. “Vinha um patroleiro de Três Passos pra puxar a lombada de cima pra baixo, mas estragou tudo”, revela.  O aposentado lembra que a grama foi plantada pela família de Renato Nunes Cavalheiro. O pai e dois meninos realizaram o trabalho. “Um ia desfiando a grama e os outros iam plantando”, recorda. Conforme ele, as mudas foram implantadas com espetos.

O 27 de Maio não era uma sociedade que detinha o campo como patrimônio. A área em que o campo foi instalado possuía três donos. Edegar, por exemplo, era proprietário de três partes. “Antes era dos Kreher, depois ficou pra nós, mas sempre foi cedido e até hoje eles estão lá”, comenta Darci.

Darci ainda adolescente começou a participar como jogador do 27 de Maio. Segundo ele, foram jogadores e ajudaram a fundar o clube: Edegar Lottermann, Adílio Dresh, Rodolfo Brustolin, Reinoldo Hanke, Alberto e Ari Hubert, Alexandre da Cruz (popular Saracura), Gentil e Arleu Garcia. “A gente não se lembra mais de todos, mas esses eram no tempo do 27, no União eram outros nomes”, pontua Darci.

 

A união fez a força

O dia exato da fundação do Esporte Clube União de Perdidas é uma lembrança que se perdeu no tempo. Nenhuma fonte consultada soube precisar ano, mês, tampouco dia da criação do clube. Os motivos, entretanto, não saem da cabeça dos envolvidos. “A fusão foi para fazer um time forte, eles queriam formar uma seleção ali”, avalia Darci.

Conforme Darci, muitos jogadores gostavam de jogar em Perdidas. A comunidade era considerada um centro no interior. “Vista Alegre, Pescador, Caçadorzinho, todo mundo se juntava ali”, lembra. Perdidas supria as necessidades básicas do agricultor. “Ali tinha moinho, tinha comércio, casa de negócios, ferraria, carpintaria, serraria, açougue, o que um colono precisava. Perdidas tinha de tudo”, comenta.

Uma comunidade forte necessitava de um clube de futebol igualmente imponente. Somente um selecionado seria capaz de fazer frente a Grêmio e Internacional, equipes da cidade. Conforme Reinoldo, a direção do 27 de Maio resolveu então buscar atletas no Sete de Setembro, de Caçador, e Fluminense, de Vista Alegre.

Os idealizadores do novo clube foram Eugen Kreher, Adílio Dresch e as famílias Patzlaf e Operman. A lembrança é relatada por Pedro Danilo Erhart, produtor rural que reside na localidade. Pedro atualmente é a principal liderança do União. Em meados de 1965 ele iniciou sua trajetória pelo clube.

 

Bons e maus momentos

O motorista aposentado João Orlandim é natural de Caçador. Ele foi um dos dois atletas a deixar o Sete de Setembro e se juntar a equipe recém-formada. “Eles quiseram fazer uma seleção com os melhores jogadores dos três times”, confirma. O outro destaque do time de Caçador era Jacinto Cosman, mais conhecido como Garrincha. “Ele jogava de lateral, chamavam assim por que tinha os dois pés tortos”, comenta. João levou consigo ainda seu irmão Alberto Orlandim, que atuava como meia-esquerda. “Humaitá não criou um meia que nem ele ainda”, elogia. Na lista de companheiros de clube na passagem pelo União de Perdidas, João lembra também de Rudi e Aureo Scheren, João Didoné e Ataíde Lopes.

Do início dos anos 1960 até meados de 1971, o União desenvolveu de forma ativa suas atividades no futebol. Pedro destaca a participação do comerciante Romeu Kolling. “Naquela época o Romeu era um líder, se ele mandava hoje vamos pra lá, todo mundo ia junto”, comenta. Romeu disponibiliza um caminhão para transporte dos jogadores e da torcida, além de financiar as viagens do time. “Ele era dono do comércio que tinha ali”, afirma. Não por acaso, no mesmo período em que Romeu deixou a localidade, o clube também encerrou as atividades. “O União deu uma parada nessa época”, afirma Pedro.

 

 

A volta

A iniciativa de Pirinato Patzlaf foi fundamental na retomada das atividades do União. O ano era 1976. Uma lembrança em especial ficou marcada na memória de Pedro. Em uma tarde de domingo , Pirinato reuniu alguns jovens da comunidade e mandou o recado. “Ninguém vai tomar ‘refri’ hoje, todo mundo vai guardar o dinheirinho por que eu vou sair pra cidade comprar uma bola nova”, lembra Pedro, das palavras proferidas pelo companheiro.

Uma semana depois o futebol voltaria a alegrar as tardes de domingo na comunidade. “Lá tinha no mínimo uns trinta ‘piazedo’, tá louco, isso era uma festa”, relembra Pedro. O gesto reanimou os atletas que, desde então, não encerrou mais as atividades. “Só que era mais difícil, com dificuldade, mas sempre foi indo”, comenta Pedro.

A ascensão do União em meados de 1970 teve influência direta da reabertura da casa de comércio na localidade. O time se solidificou após a família Câmara assumir a administração do estabelecimento. “Aí começou de melhorar, tinha caminhão pra ir aos jogos de novo”, lembra Pedro. Ele cita os nomes de Flávio Werner e Ceno Steffens, que colaboraram no transporte do time e financiaram as atividades do futebol. “Quando tu tinha caminhão no interior, tinha tudo. Quem não gostava de futebol, gostava de viajar de caminhão”, afirma.

 

 

Colecionador de títulos

O Esporte Clube União de Perdidas faturou sete títulos municipais de Humaitá. A taça foi conquistada nos anos de 1981, 1984, 1988, 1992, 2004, 2011 e 2013. Em 2002 o União conquistou a Copa Selmiro Scheren. Pedro ainda se recorda de um título conquistado na década de 1970. Segundo ele, era uma taça rotativa.

A equipe ficou conhecida por montar escretes fortes e competitivos em todas as edições de campeonato em que participa. Pedro atribui o sucesso a forma que a comunidade tem de trabalhar. “Eu acho que o acolhimento do nosso povo, ele deixa de atender o pessoal da cidade e valoriza quem vem de fora”, comenta.

O União retomou a realização de amistosos no início deste ano. Maikel Erhart, juntamente com seu irmão Marlos, além dos primos Farlei e Eduardo Erhart, são a continuidade da família no envolvimento com o clube.

Conforme Maikel, a preocupação é de que os atletas se sintam em casa na sede do União. A filosofia empregada é de buscar atletas que pensem no coletivo da equipe.  Segundo Maikel, o clube tenta manter uma base e busca reforços em pontos cruciais para os campeonatos. 

 

 

*Texto: Thomás Silvestre / Camisa 10


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