Um gigante adormecido

29/06/2015 10:00

A história do Tamoio, equipe Tetracampeã do Varzeano de Humaitá, mas que há vinte anos encerrou suas atividades

 

De um lado duas traves permanecem de pé. De outro, somente uma ainda sobrevive. Faz um tempo que a bola não rola mais por ali.  O alambrado permanece a postos, porém faltam torcedores para agarrá-lo. A copa não resistiu a ausência dos frequentadores e sofre as consequências do abandono. Ninguém mais senta à sombra dos eucaliptos nas tardes de domingo. Até grama nasceu onde antes a bola corria em meio a terra e poeira. Este é o cenário atual da sede do Tamoio Futebol Clube, equipe que representou a localidade de Herval Grande durante 20 anos no Campeonato Varzeano de Humaitá.

 

O campo, que na época era de terra, foi sede de um dos times mais vitoriosos da história do município. O Tamoio conquistou quatro edições do Campeonato Varzeano. O agricultor Eugênio Batista foi treinador e atuou como atleta em alguns períodos da equipe. Ele lembra que na primeira conquista em 1975, Armando Blatt e Hélio Schuster foram decisivos ao anotarem dois tentos na final contra o América de Sanga Freitas. O placar final foi 2 a 1 para o Tamoio.

Hélio Schuster também é agricultor e na época atuava como ponta esquerdo daquele time. Ele conta que o Tamoio conquistou o título de 1975 de forma invicta. “O time era muito bom. Podia até levar um gol, mas a gente tinha aquela confiança que logo ia empatar ou ganhar o jogo”. Atualmente aos 64 anos, Hélio lembra com saudade dos tempos em que era jogador. A comemoração entrou noite a dentro e só não foi maior por causa de um temporal que caiu sobre a cidade. Um dos destaques daquele time era o centro-médio Paulo Rauber, hoje com 68 anos. Ele recorda que antes do temporal ainda deu tempo para um desfile em carreata pelas ruas da cidade.

Na década de 1980, uma geração talentosa de atletas defendeu o Tamoio e garantiu três títulos ao clube. Em 1981, liderado por Edemar Richter, Vilson Scheren e cia, o Tamoio conquistou o bicampeonato em cima da Associação Humaitá de Esportes, após empate em 2 a 2 no tempo normal e vitória nos pênaltis. No ano seguinte, em 1982, e depois no ano de 1984, a mesma base de jogadores conquistou o tri e o tetra campeonato em cima do Olarias de Linha Wolf. Em 1983 a série vencedora foi quebrada pelo próprio Olarias ao vencer o Tamoio na grande final.

 

Diversão que envolvia a comunidade

O Tamoio Futebol Clube foi fundado em meados de 1956. Pedro Roque Schuster é o mais velho de seus nove irmãos, dentre eles Hélio e Arno, também atletas. Na época ele era um jovem de 16 anos quando participou das primeiras formações que defenderam as cores rubro-negras da equipe. Segundo ele, tudo começou em um potreiro na propriedade de Frederico Kühn. “Lá que a rapaziada jogava. Eram famílias grandes e numerosas”, recorda.

A agricultora aposentada Soeli Rauber era criança quando viu as primeiras partidas do Tamoio. Segundo ela, inicialmente o clube funcionou no potreiro localizado em Herval Novo, localidade vizinha. Os fundadores do clube foram Nestor Marquezin (em memória), Walter Hilck (em memória), Brandão Maria (em memória) e as famílias Petry e Parode que ali residiam. Soeli conhece a história por que é filha de Brandão, que ajudou a fundar a equipe. Roque coloca nessa lista ainda José Cavalheiro, Cido Schuster, Norberto e membros das famílias Kühn e Baron. Roque defendia as cores do Grêmio, que na época funcionava na Cascata, mas sempre participava pela equipe vizinha quando faltava um jogador.

O Tamoio permaneceu na localidade de Herval Novo por pouco tempo. Cerca de um ano mais tarde a sede do clube foi transferida para Herval Grande, onde foi adquirida uma área de terra. No local foram construídos copa e um campo de chão batido. O trabalho foi realizado a base de enxada e arados puxados por animais. “Na época ninguém tinha trator”, comenta Hélio.

 

Envolvimento familiar

O futebol envolvia de tal forma a comunidade, que casais passavam a namorar após se conhecerem nos jogos. Foi assim com Paulo e Soeli Rauber. O centro-médio se destacou jogando por um clube rival. Após a boa atuação em um amistoso, ele recebeu o convite para defender as cores do Tamoio. Depois de algumas partidas pelo novo time, Paulo conheceu Soeli e ali namoraram, casaram e constituíram família. Os dois comentam que casos semelhantes também ocorreram com outras famílias locais.

A direção do Tamoio não media esforços para contar com um bom jogador. Paulo conta que quando o Walter Hilck foi presidente, trazia famílias inteiras de outras cidades para trabalhar em sua Olaria. “Se tinha um jogador meio bom, ele trazia pra trabalhar na Olaria e jogar no time”, conta. 

O período áureo do rubro negro ocorreu entre as décadas de 1970 e 1990. Eugênio lembra com nostalgia da época. “Era a diversão do final de semana. Todos esperavam o final de semana pra ir jogar futebol”. Domingo era um dia sagrado, ninguém trabalhava. Pela manhã o compromisso com a Igreja e à tarde a diversão era no campo de futebol.

 

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Estrutura e deslocamentos

O transporte para jogos em outras comunidades era feito de caminhão. Em regiões próximas, as viagens ocorriam geralmente pela parte da tarde. Porém, se o amistoso era mais longe, a viagem começava pela manhã, com almoço na sede do adversário. Eugênio relata que até bancos especiais eram confeccionados para este fim, para que as pessoas pudessem se acomodar na boleia do caminhão.

Em uma das partidas da campanha no primeiro título Varzeano, Hélio relata que foram lotados cinco caminhões para se deslocarem até Sanga Freitas. Naquela ocasião, os atletas até se deram ao luxo de “ostentar” ao viajarem de micro-ônibus até o campo adversário. O transporte era garantido pelo apoiador Nestor Marquezin, que detinha o caminhão e não cobrava nada para transportar jogadores e torcida.

A sede do Tamoio não contava com água nem luz instalados. Antes das partidas, a equipe mobilizava um mutirão para trazer água até a copa. Eugênio conta que para gelar as bebidas era preciso comprar pedras de gelo. As pedras eram acondicionadas dentro de caixas em meio a serragem.

 

Com o passar dos anos a população na comunidade diminuiu, impactando diretamente na formação do time. Eugênio constata que as famílias ficaram menores e muitos moradores se deslocaram à outras regiões. Com isso, em 1995, Hélio conta que a então direção do Tamoio optou por encerrar as atividades em função de que o time não tinha condições de retribuir as visitas dos adversários.

Durante 20 anos a sede do clube permaneceu abandonada. No início deste ano uma assembleia entre lideranças do clube definiu pela venda da área de terra em que o campo está localizado. Segundo Hélio Schuster, o dinheiro será doado para a comunidade de Herval Grande que deve investir na construção de um novo salão comunitário.

 

*Texto: Thomás Silvestre / Camisa 10

               


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