O trabalho que transforma

29/06/2015 07:00

O esforço realizado desde os fundadores até o grupo que tenta reerguer o clube. Conheça a história do Esporte Clube Internacional de Humaitá

 

O sorriso era largo no rosto dos garotos que batiam bola ali. Afinal, a grama foi aparada, o campo está limpo e as traves foram arrumadas. A reação foi imediata. A gurizada reapareceu e o futebol voltou a fazer parte do convívio dos moradores do Bairro Operário. A sede do Internacional estava abandonada. Um grupo de entusiastas reuniu esforços para reativar o time e participar do Campeonato Varzeano de Humaitá.

A história prova que a trajetória do colorado humaitense foi marcada por altos e baixos, vitórias e decepções. Atualmente a sexta geração de atletas tenta novamente reanimar o clube e recolocar o Internacional no caminho das vitórias.

 

As origens do Esporte Clube Internacional de Humaitá remetem a um grupo de amigos que jogava futebol na praça da cidade. Aliás, na época Humaitá ainda era distrito de Crissiumal. O aposentado Roque Eugênio Hartman foi um dos fundadores do clube. Segundo ele, a fundação se deu no ano de 1955. O primeiro campo em que o clube mandou suas partidas foi em um gramado da praça Getúlio Vargas.

Um registro do Diário Oficial comprova a existência do time antes mesmo da emancipação do município. Um extrato do estatuto do clube foi publicado na data de 24 de outubro de 1957. “A Sociedade ‘Esporte Clube Internacional de Humaitá’ é órgão fomentador dos desportos em geral, terá duração por tempo ilimitado e sua sede e foro em Humaitá, Município de Crissiumal, Estado do Rio Grande do Sul”, registra o documento. Humaitá se emancipou em 1º de março de 1959. Roque foi quem preservou o documento.

O senhor de 80 anos revela que no início “tinha só o campo, com umas ‘barba de bode’, e as duas traves”. Segundo o Diário Oficial da época, a primeira diretoria foi composta por Osmar Führ, como presidente; Rudy Fleck, de vice; Olívio Erpen e Edegar Führ com os cargos de primeiro e segundo secretários; e Ervino Bamberg e Ervino Klausen, nos cargos de primeiro e segundo tesoureiros. Dentre os sócios fundadores aparecem também nomes como os de Pedro Affonso Ledur, Rudi Dier, Emílo Stum, Ilto Bickel, Albano Bamberg, Arminaldo Simon, Pedro Romeu Neis, Ogaldino de Deus, Leonardo Hermes e outros entusiastas. Conforme Roque, na época, jovens na faixa dos 20 anos. Atualmente, senhores entre 70 e 80 anos.

 

 

Futebol que criou raízes

Além de fundador, Roque também se envolveu com o Internacional por cerca de 20 anos. O Internacional foi o motivo para que o jovem funcionário do DAER fixasse morada no município. Ele atuou no protejo iniciado na década de 1950 que previa a pavimentação asfáltica das rodovias estaduais da região. A função dele era fazer o alinhamento da estrada e limpar o terreno para posterior asfaltamento. “Éramos em 26 homens que se mudavam igual cigano abrindo picada. Em Humaitá, onde hoje é a cidade, era puro mato”, relata. Detalhe que até hoje alguns trechos não foram asfaltados, caso do trecho da BR-472, entre Humaitá e Boa Vista do Buricá.

O zagueiro “raçudo” chamou a atenção dos companheiros de equipe. Roque reunia bons predicados, como seriedade, técnica apurada e determinação. A única forma de mantê-lo no time era oferecendo um emprego melhor na cidade. E foi o que aconteceu. “Na primeira padaria do município me deram emprego, me pagaram mais que o DAER me pagava.” O companheiro de time Olívio Erpen foi quem abriu o comércio e contratou Roque.

 

 

Mudanças de casa

O Internacional construiu duas sedes antes da instalação atual no Bairro Operário. A construção do campo, aliás, é anterior à fundação da comunidade. Ao longo destes 56 anos muita coisa mudou. Roque, por exemplo, conta que caçava inhambu no local onde hoje é área central da cidade. Inhambu é um pássaro típico da vegetação do cerrado e atualmente raro na região.

Após cerca de um ano de funcionamento junto à praça, o Internacional reuniu recursos para adquirir uma sede própria. A equipe comprou a área de terra onde hoje é o cemitério municipal, local onde permaneceu instalada por cerca de dois anos. Logo após a emancipação de Humaitá, o então prefeito Eugen Rodolfo Kreher solicitou a compra da terra para construir o cemitério municipal. Conforme Roque, a reivindicação partiu da comunidade evangélica, que desejava um cemitério ao lado do já instalado dos católicos.

A sociedade esportiva cedeu o espaço de sua sede para instalação do cemitério. A prefeitura, por sua vez, doou uma área na região onde posteriormente se formou o Bairro Operário. É o que demonstram editais da época, disponíveis na biblioteca municipal. Segundo Roque, uma permuta garantiu que a transferência da terra fosse garantida. Inicialmente o campo era de chão batido.

 

 

Formação do Bairro Operário

O Bairro Operário iniciou sua formação em meados de 1970. O aposentado Noroli Silvestre foi um dos primeiros moradores da comunidade. Ele recorda que alguns anos antes de sua chegada residiam no bairro as famílias de Albino Ferreira e dos falecidos Arthur Bones dos Santos e Antônio dos Santos Silvestre e. Na região também se tem registro de alguns nativos do lugar, casos de mulheres conhecidas como Dona Pedrinha e Etelvina, já falecidas.

Conforme Noroli, após 1975 também fixaram residência no local as famílias de Luiz de Moura, Ireno Pereira, Bastião, Alfredo e Salvador Bones Figueira, falecido. A maioria dessas famílias veio de Campo Novo, mais precisamente das localidades de Linha São Pedro e Vila Industrial. A oferta de emprego nas cooperativas Cotricampo e Cotrimaio atraiu boa parte desses moradores.

O nome do bairro foi escolhido a partir de um concurso entre os membros da comunidade. Um grupo de quatro pessoas, dentre elas Jurema Silvestre, esposa de Noroli, sugeriu o nome. Na mesma oportunidade também foi escolhido o nome da capela católica no local. A votação definiu como “São José” o nome da capela e “Operário” o nome do bairro.

 

 

As diferentes fases e gerações do clube

Na década de 1960, o Internacional participou ativamente de torneios regionais e conquistou alguns títulos. Os torneios movimentavam o futebol local na época. As sociedades esportivas organizavam o certame e convidavam equipes da região para participar. As competições eram realizadas em único dia, com a participação de dezenas de equipes. As taças destas conquistas se encontram atualmente guardadas na sede do Clube Humaitá.

O pedreiro Luiz Jacó Simon era um garoto de oito anos quando passou a torcer pelo Inter do Bairro. O ano era 1965. Luizinho, como é conhecido, comenta que naquele período eram atletas do clube Geraldo Bickel, Ildo Bickel, Galhardo Lemos, Ogaldino de Deus, Roque Hartman, Rubem Willers, Silvio Schneider. “Estes três últimos ainda vivem, os demais são falecidos”, lembra.

Da fundação até os dias atuais, seis gerações de atletas vestiram a camisa do colorado humaitense. Luizinho diz ter visto todas elas jogar, inclusive atuando como atleta e dirigente durante algumas épocas. Em 1972, então com 15 anos, estreou pelo clube na categoria aspirantes. No início dos anos 1970 o time se reestruturava após parada das atividades. Luizinho explica os motivos. “O clube parou com suas atividades esportivas devido à saída de jovens para outros municípios e estados” – comenta.

 

 

Por quase 30 anos as partidas no campo do Internacional eram realizadas no chão batido. Em 1987 a sede do clube foi reestruturada. A diretoria, então presidida por Augusto Engerrof, promoveu a construção do alambrado e plantio de grama.

Em 1992, a direção do Internacional passou a ser ocupada por Aldino Schuh. Nos anos 1990, Saltil Ferraz Mathias também assumiu como presidente em alguns períodos. Nesta época foi construído um galpão de madeira, com chanca de bochas. Segundo Saltil, no início dos anos 2000 foi criado o time de Veteranos. A equipe master foi responsável pela construção de uma nova sede de alvenaria.

 

Retorno

Até o início do mês de abril deste ano nenhuma atividade era realizada no Campo do Internacional do Bairro Operário. Segundo garotos que moram nas redondezas, o gramado estava alto e não se tinha condições de jogar futebol no local.

Um grupo de moradores da Vila Jardim, bairro vizinho ao Operário, tenta reerguer o clube. José Elias de Melo, popular Juca, é um dos líderes deste movimento. Segundo ele, o objetivo é montar uma diretoria e realizar atividades o ano inteiro. Ele quer mobilizar toda a comunidade. “Nós temos gurizada suficiente nessas vilas pra jogar” – reforça.

Juca deseja somar forças, para isso quer contar com a ajuda de antigos dirigentes e dos jovens dos bairros para recolocar o Internacional no lugar do qual nunca deveria ter saído.

 

*Texto: Thomás Silvestre / Camisa 10

*Obs: Nomes dos atletas do time em 1988 e outras gerações que defenderam o clube serão atualizados em breve. 


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