De tijolo em tijolo

29/06/2015 08:00

A construção de um time tricampeão municipal em Humaitá. A história da origem, conquistas e a situação atual do Esporte Clube Olarias da Linha Wolf

 

Uma festa em 4 Km. A comemoração do primeiro título do Esporte Clube Olarias da Linha Wolf começou no Estádio Chacrinha da Comarca e se estendeu por todo o trajeto que leva até a sede do clube. O atacante Sebaldo Pereira prometeu: “Se nós ficarmos campeões eu vou a pé embora, só me tragam a cerveja”. O título de 1985 foi conquistado após vitória de virada sobre o Olarias da Lorcheiter por 3 a 1. Sebaldo ganhou a companhia de alguns torcedores na peregrinação. “Outros vieram me encontrar soltando foguete e trazendo cerveja” – lembra o atacante.

Entre conquistas, idas e vindas, conheça a história do Esporte Clube Olarias da Linha Wolf. A equipe, fundada em meados de 1995, foi tricampeã municipal e possui uma trajetória marcada pelas relações de trabalho com a olaria da comunidade.

 

 

O alicerce

O Olarias da Linha Wolf foi uma das primeiras agremiações esportivas de Humaitá. Segundo o agricultor Pedro Roque Schuster, um dos precursores do futebol no município, o Olarias foi a segunda equipe da cidade. O senhor de 75 anos relata que antes existiu o Guarani, clube que desempenhou suas atividades nas imediações da Praça Getúlio Vargas. Roque, como é chamado, era um adolescente quando foi convidado para jogar na equipe recém-formada da Linha Wolf. “Fui eu e um irmão do Chico Kirch, o Terno Kirch.” O ano era 1955. Roque tinha 15 anos na época.

O clube da Linha Wolf foi fundado por funcionários da olaria de Frederico Wolf. “Ali funcionava uma cerâmica muito grande”, comenta Roque. Alguns dos primeiros atletas a vestirem a camisa do Olarias foram Albino e Terno Kirch, Roque Schuster, Waldemário Fell, Geraldo e Ildo Bickel, Rudi Fleck, Miro Bus e Adão Keller.

O agricultor Bruno Bickel tinha dois anos de idade quando o clube foi fundado. Atualmente, aos 62, Bruno guarda na memória as histórias contadas por seus tios Ilvo e Delfino. “Eles jogavam no potreiro do Rudi Fleck”, recorda. Rudi era genro de Frederico Wolf e administrava a olaria. Segundo Bruno, o time funcionou por alguns meses. Muitos atletas da cidade abandonaram o Olarias para jogar por Grêmio ou Internacional. As três equipes foram fundadas com no máximo um ano de diferença, mas Roque garante, a primeira delas foi o Olarias.

 

 

Equipe forjada e sede solidificada

Passaram-se 20 anos até uma nova geração de atletas refundar o Esporte Clube Olarias. O menino Bruno Bickel cresceu e, aos 22 anos, liderou o grupo de amigos que reergueu a sociedade esportiva. O ano da retomada foi 1976. “Uns jogavam nos Frizzo, outros na Cascata, aí o Ezequiel Ribeiro chegou pra mim e disse: vamos fundar um time?”, lembra Bruno, que na época respondeu: “eu sou parceiro!”.  

O terreno para construção do campo foi doado por Pedro Leitchweis, agricultor, que depois se tornou o primeiro presidente do novo clube. Conforme Sebaldo, o Olarias reiniciou com 18 associados. Segundo ele, o galpão foi construído pelos próprios membros da equipe. “Cada um doava uma árvore ou os eucaliptos e nós íamos buscar” – comenta. As toras de madeira eram trazidas das propriedades com o trator de Nestor Frederico Bickel, pai de Bruno.

Dentre as lideranças que contribuíram na reconstrução do Olarias, Bruno cita Geraldo Bickel, Ivan Bach, Rudi Fleck, Arno Bageston, Oswaldo Klein, Irineu Seibel, Jorge Seibel, Elói Hartman, Genésio Hartman. “Eram os mais antigos que ajudaram”, enfatiza. A experiência dos mais velhos se juntou ao entusiasmo dos mais novos. Conforme Bruno, eram jovens na época e também trabalharam pelo clube o seu irmão José Carlos Bickel; Ezequiel Ribeiro; Marino Neis; Neri Spicker; Valdir, Pedro, Alceu, Arcênio, Carlos e Jeorge Bickel, Adeli Thalheimer (Spitz), Sebaldo Pereira, Lizandro dos Santos, Irineu Sevald, Darino Maria, Luiz Lorenzon e Vilson Scheren (Tucha).

Após dez anos de funcionamento, em 1986, o Olarias angariou recursos para comprar a área cedida para a construção da sociedade. Neste meio tempo, segundo Bruno, a terra foi adquirida por Arno Ritter. “Avisei o seu Arno que queríamos comprar a terra.” A resposta dele foi imediata. “Mas eu nunca quero que vocês vão embora, eu já comprei vocês junto”, recorda Bruno. O clube, entretanto, queria possuir a escritura da terra. As partes se acertaram e o Olarias adquiriu oficialmente sua sede própria na Linha Wolf.

 

 

Década vitoriosa

Na década de 1980, o Olarias se tornou um assíduo frequentador de decisões do Campeonato Varzeano. Neste período o clube levantou três taças e acumulou vários vice-campeonatos do certame. “No segundo campeonato em que participamos já chegamos na final”, lembra Bruno. Na terceira participação do clube, o primeiro título. Em 1983, na decisão, vitória de virada por 3 a 1 sobre o Olarias da Lorcheiter. O tricolor da Linha Wolf ainda conquistou o título do Campeonato Varzeano nos anos de 1985 e 1990.

Sebaldo recorda que no primeiro título do Olarias o presidente era Luiz Lorenzon. No dia da decisão, a direção promoveu uma concentração para preservar os atletas. “A turma se reuniu no domingo de manhã. O Lorenzon pegou eu, o Ido Rohden e o ‘Sepe’ Classmann; e o Bruno levou o resto do time” – comenta Sebaldo. O presidente então pediu que os dois destaques daquele time, o Sebaldo e o Ido Rohden, se escondessem e chegassem no campo pouco antes de o jogo começar. “Sei que eles disseram: o Nego Sebaldo e o Ido Rohden não estão aí, dá pra ser campeão” – foi a reação da torcida adversária, lembra Sebaldo. Os dois chegaram fardados e entram direto no campo. “A torcida deles disse: estão aí os dois, agora sim temos que cuidar”, recorda o atacante.

 

Um time de respeito

O Olarias da Linha Wolf ficou reconhecido por ser um time disciplinado. “Quando eu era treinador nunca me envolvi em uma briga, nem com juiz”, comenta Bruno. O agricultor participou ativamente na organização do clube, seja como treinador, seja como presidente. “Raramente dava briga, se saía fora das regras a gente chamava a atenção”, destaca.

Conforme Bruno, a participação da comunidade era maciça. “Nos primeiros anos o que tinha perna ia no jogo, era mulher, homem, guria, ia todo mundo”, recorda. Segundo ele, o clube também contava com torcida organizada. “Tirava até leite no escuro se preciso”, afirma.

De acordo com Sebaldo, a base da equipe tricampeã municipal foi formada pelos Goleiros, Mirão, “Rolha” e Juca Melo; Defensores: Neri, João e Ivo Spiecker; Meio-campistas: Antônio Neis, “Nico” Scheren, Carlos Bickel, Neo Classmann e Ido Rohden; atacantes: Sepão Bickel, Spitz, Sebaldo, Neri Lorenz, Jandir Fell, Gilberto Hartmann, Sérgio Schwade e Mario Andres.

Alguns atletas de outros municípios também integraram o elenco tricampeão na década de 1980, casos dos irmãos Protásio e Gervásio Schneider; Adelar Schafer e Adelar Albring de Crissiumal; e “Tininga” de Três Passos. Na lista de atletas que começaram no Olarias e se destacaram, Bruno lembra também de Gilberto Knorst (Kina), João Gonçalves, Nelson e Marino Neis, Irineu Sevaldt, e outros.

 

 

Excursões

No período áureo do Olarias, a equipe chegou a fazer excursões esportivas a outros estados. “Cada ano a gente fazia umas excursões boas pra Foz do Iguaçu”, se recorda Bruno. Outras viagens citadas por ele foram para Marechal Candido Rondon, Sulina, São João, São Lourenço do Oeste, todas no estado do Paraná. Nas viagens, cada membro da delegação visitante era recebido na casa de algum dos adversários. “Eu tinha conhecidos lá pra cima, tios e primos”, explica Bruno. Por meio de parentes, os amistosos eram firmados contra equipes do Paraná ou Santa Catarina.

As visitas feitas depois eram retribuídas. Em uma ocasião a Banda Municipal que existia em Humaitá recepcionou os membros de uma delegação de Santa Catarina. Bruno lembra também que a banda humaitense “Os Vibrantes”, de Arno Hanauer, animava alguns jogos amistosos na Linha Wolf, inclusive, tendo viajado com o clube em uma das excursões para o estado de Santa Catarina.

 

Futebol em baixa

A sede do Esporte Clube Olarias em nenhum momento fechou as portas desde 1976. O futebol de campo, no entanto, perdeu espaço. O mesmo motivo apontado por outros clubes também é citado por Bruno Bickel ao explicar o enfraquecimento do time. “Aqui não tem mais ninguém, rapaz novo não tem mais” – sintetiza. Ele ainda acrescenta o enrijecimento da fiscalização no trânsito como um agravante. “Eu não quis mais correr o risco de levar o pessoal de caminhão. E se cai um de cima? E se eu for preso? Quase todos os clubes foi assim, e pagar pelo transporte não dá”, finaliza.

Atualmente a sociedade esportiva recebe jogos de bocha e bolãozinho aos finais de semana. Conforme Bruno, são realizados esporadicamente torneios de vaca mecânica no gramado do campo. Um grupo de jovens se organiza para retomar as atividades do futebol no clube novamente.

 

 

*Texto: Thomás Silvestre / Camisa 10


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