Arbitragem caseira

29/06/2015 09:30

A história de membros da comunidade que assumiram como árbitros nas partidas do Campeonato Varzeano de Humaitá

 

Arbitragem caseira na linguagem do futebol é um termo pejorativo. A expressão é utilizada para designar um árbitro que favoreça a equipe mandante em suas decisões dentro de campo. Em Humaitá, porém, a interpretação do termo pode assumir outro significado. Durante cerca de 15 anos foram árbitros caseiros que garantiram a realização dos Campeonatos Varzeanos. A expressão neste caso é empregada no sentido literal da palavra, pois membros da própria comunidade assumiram como árbitros e bandeirinhas entre as décadas de 1970 e 1980.

A primeira edição do Campeonato Varzeano foi realizada no ano de 1975. A equipe campeã foi o Tamoio Futebol Clube de Herval Grande. No período participavam também equipes do território correspondente ao município de Sede Nova.

 

 

Vida difícil de árbitro

O funcionário público aposentado e hoje pintor Silvestre Frizzo atuou como presidente do Conselho Municipal de Desportos (CMD). Ele conta que assumiu o posto em 1984 e permaneceu no cargo por oito anos. Silvestre era responsável pela organização dos campeonatos. Segundo ele, além da inscrição dos times, cada equipe também devia fornecer um trio de arbitragem. “Os juízes das equipes da chave A apitavam os jogos da Chave B”, explica.

Documentos e relatos comprovam que a vida dos árbitros locais não foi fácil. O técnico agrícola Délcio Alaídes Donato é natural de Sede Nova, mas desde 1976 reside em Humaitá. Por cerca de dez anos ele comandou o departamento de futebol da Associação Humaitá de Esportes. Délcio conta que no início a arbitragem não cobrava para trabalhar nas partidas. Segundo ele, porém, os voluntários se desmotivaram em função de insultos recebidos. “Eu vi que aquilo era um sacrifício bobo meu, os outros foram abandonando, uns continuaram, mas uns quantos pararam”, recorda.

Alguns registros no livro de atas da Associação demonstram as dificuldades enfrentadas pelos árbitros. Na data de 28 de junho de 1983, o livro cita uma “reunião com membros do CMD com discussão sobre assuntos do campeonato varzeano”. Segundo o texto, a equipe responsável enfrentava um sério problema para escalação dos árbitros. “O senhor Délcio Donato justificou a revolta dos árbitros pelo desrespeito que está recebendo de jogadores, dirigentes de equipes e torcida” - registra. Pelo texto, os representantes do CMD presentes na reunião convocariam um encontro com os dirigentes para solucionar o problema.

No mesmo dia também foi tratado sobre o “pagamento dos estragos feitos na motocicleta do Sr. Darcísio Rubem Scheren”. O médico veterinário da Inspetoria Veterinária local havia apitado a final do Campeonato Varzeano no ano anterior e teve sua moto depredada naquela ocasião. “Após longa discussão, foi resolvido que o mesmo deverá ser pago somente mediante alguma promoção que deverá ser feita durante a semana”, sentencia o texto.

 

Liga Humaitense de Árbitros

As polêmicas envolvendo árbitros dificultaram a busca por representantes locais para apitar as partidas. Silvestre comenta que a saída foi criar uma Liga de árbitros no município. “Quem deu a ideia foi o Hilário Loch.” Segundo ele, a criação da liga tentou selecionar os melhores árbitros e desvinculá-los das equipes.

Paulo Bamberg também atuou como bandeirinha e árbitro em Humaitá. O período em que exerceu a função foi de aproximadamente dez anos. Ele recorda como era organizada a Liga de árbitros em que participava. “O CMD fazia uma reunião por semana na prefeitura e uma escala para o final de semana”, comenta. Segundo ele, o transporte para as comunidades do interior era feito de Kombi. O pagamento ocorria no valor de uma caixa de cerveja.

A liga era formada por cerca de 25 árbitros e bandeirinhas. “O Martini de Três Passos e um tal de Nenê de Santo Augusto explicavam as regras”, relata Paulo. A final de um Varzeano foi apitada por membros desta Liga. Segundo Silvestre, apitou a decisão do terceiro lugar Luiz Nelson Schmatz, o Bugio, a grande final foi apitada por Schiavo. O CMD não guarda nenhum registro da liga de árbitros. A organização, segundo Silvestre, funcionou em algum dos anos entre 1985 e 1990.

 

 

Memórias de um árbitro de futebol

 

Selestino Rossato

O advogado Selestino Rossato possivelmente foi o primeiro árbitro de Humaitá. Ele reside em Humaitá desde 1962, e exerceu a função até 1964. “Eu tinha uma certa experiência de apitar as partidas da escola, quando vim pra cá então me pediram para apitar os jogos” – comenta. Ele estudou no colégio Assis Brasil de Ijuí.

Selestino não tem recordação de algum outro árbitro naquela época. Ele afirma que os times de Humaitá eram um pouco violentos. “Naquela fase era um pouco difícil, mas respeitavam a gente e eu continuei apintando.” Selestino apitou somente partidas disputadas no campo do Grêmio Esportivo de Humaitá, hoje estádio da Associação de Esportes.

 

Eugênio Geraldo Batista

O agricultor Eugênio Geraldo Batista foi árbitro de futebol e chegou a apitar finais de campeonato no município. Ele recorda de que foram seus colegas de arbitragem Sady Marquezin, Astor Storch, Luiz Nelson Schmatz, Rosinaldo Bones, Darcísio Scheren.

Eugênio relembra de uma situação enfrentada no campo do Grêmio de Linha Pescador. Uma confusão ocorreu na partida entre Grêmio e Operário. Somente uma corda separava a torcida do campo. A segurança era feita por uma comissão de ordem elegida pelo time da casa. Os membros da comissão entraram em campo para tentar acalmar os ânimos. No entanto, despertaram a ira de Eugênio. “Parei o jogo e mandei saírem todos do campo, ‘se é pra atrapalhar não preciso de ninguém aqui’”, esbravejou o árbitro. Depois do jogo, ele conta que foi na copa tomar uma cerveja.

 

Paulo Bamberg

A situação mais bizarra que o aposentado Paulo enfrentou foi numa final de Varzeano, entre Alvorada e Juventude Avante. Naquela oportunidade o Juventude ficou campeão ao vencer o Alvorada por 1 a 0.

O fato marcante para o ex-árbitro foi uma bolada recebida na nuca que o derrubou. O lance aconteceu na altura do meio de campo. “Eu senti que o alemãozinho ia colocar a bola na área.” Paulo estava posicionado a uns cinco metros de distância do garoto e não conseguiu desviar da bola. “Me abaixei e ‘botei’ a mão no chão, mas ‘troquei de ponta’”, detalha. Segundo ele, o boné ficou estendido no gramado.

Paulo apenas lamenta guardar as lembranças da arbitragem somente na memória. “Nunca ganhamos um ‘troféuzinho’ sequer, nada, nenhuma medalhazinha.” Ele ainda relatou não possuir nem fotos daquela época.

 

Adelí Renher

O comerciante Adelí Renher também se envolveu como árbitro em Humaitá. Entre os anos de 1978 e 1988, ele representou o Atlético Cascatense, de Linha Cascata. Depois passou a integrar o quadro de árbitros da Associação de Esportes.

Ele relata que abandonou o apito para evitar prejuízos financeiros em sua profissão. “Na época as pessoas não sabiam separar arbitragem de profissão, para o pessoal que tem comércio é complicado”, comenta Adeli. Segundo ele, “tá difícil até hoje por causa disso”.

Adeli recorda que entre o final dos anos 1980 e meados da década de 1990, período em que atuou como árbitro, teve como parceiros os bandeirinhas Paulo e Romeu Bamberg, Laro Kreher, Aldo e Astor Storch. Alguns dos nomes citados por ele também atuaram como árbitros.

 

Bruno Bickel

Bruno Bickel foi um dos entusiastas do futebol na Linha Wolf. O agricultor foi presidente do Esporte Clube Olarias e durante alguns anos também representou o clube como árbitro. Bruno vai na contramão dos demais ao afirmar que nunca se incomodou em um jogo.

Segundo ele, o segredo era uma conversa que ele tinha com os jogadores antes de cada partida. “Eu dizia assim: vocês vão jogar futebol eu vou apitar, se vocês querem ganhar o jogo vocês vão ter que resolver pelas qualidades de vocês” - relata.

Bruno também pedia compreensão aos atletas caso ocorresse algum erro. “Assim como vocês erram um passe, eu estou sujeito a errar. Eu não quero errar a favor de ninguém, às vezes vocês estão na frente do gol e erram”, salientava Bruno. Segundo ele, o que faz um campeonato funcionar é o regulamento. “Quem acha que não pode cumprir fica fora”, avalia.

 

Desde o início dos anos 2000 a arbitragem dos Campeonatos Varzeanos de Humaitá é realizada por Ligas de Árbitros da região. A edição 2015 do campeonato, por exemplo, conta com o trabalho da Liga Trespassense de Árbitros.

 

Texto: Thomás Silvestre / Camisa 10

Fotos: Acervo de Délcio Donato e Thomás Silvestre. (Não foram localizados registros fotográficos da arbitragem nos Varzeanos)


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