Afagar a terra e se fartar de futebol

29/06/2015 06:00

A história do Grêmio Esportivo de Humaitá, clube que construiu o campo e originou o time da Associação Humaitá de Esportes

 

Enxadas, picão, arado e um cavalo. O trabalho foi árduo para deixar a “roça nova” com cara de campo de futebol. O clube, fundado alguns anos antes na Linha Cascata, se transferia para a recém emancipada cidade de Humaitá. “Em volta era tudo mato”, conta Pedro Roque Schuster, agricultor e na época sócio do Grêmio Esportivo de Humaitá. O ano era 1960. A roça transformada em campo hoje é conhecida como Estádio da Associação Humaitá de Esportes.

A história do clube é dividida em dois momentos. O primeiro é o das origens da agremiação, que foi fundada com o nome Grêmio Esportivo de Humaitá no ano de 1956. O segundo momento representa a alteração do nome e recebimento de recursos da Administração Municipal. A partir de 1975 o clube passou a se chamar Associação Humaitá de Esportes.

 

 

Mergulho nas origens

Antes de relatar o início da trajetória do Grêmio, é preciso pontuar as origens do futebol no município. A lembrança está na memória do agricultor Pedro Roque Schuster. Segundo ele, o berço do futebol humaitense se deu na praça Getúlio Vargas. O primeiro time de futebol a se organizar no município se chamava Guarani. Naquela equipe atuaram alguns dos primeiros moradores da comunidade. Dentre eles estavam Albino e Edegar Kirch, Léo Butinguer e Rudi Dier. As recordações datam de 1948. Roque, como é conhecido, era um menino de oito anos. Segundo ele, alguns anos mais tarde os atletas daquele time migraram para outras comunidades, onde ajudaram a fundar novos clubes de futebol.

No antigo campo do Guarani um grupo de amigos dissidentes do clube fundou o Esporte Clube Internacional, em 1955. Imediatamente os simpatizantes do rival porto-alegrense fundaram na Linha Cascata o Grêmio Esportivo de Humaitá. A grenalização já existia naquela época. “Os dois times foram criados quase juntos, foi em 1955 ou 1956”, conta Roque. Os registros permanecem apenas na memória, pois a maioria dos documentos se extraviaram com o passar do tempo.

Os sócio fundadores do Grêmio eram integrantes das famílias Hoffmann, Schaefer, Shoultz e Schneider. A comunidade da Cascata contava com um grande número de moradores. Simpatizantes do tricolor de Porto Alegre também se deslocavam da cidade para defender as cores do “genérico” da Linha Cascata.

 

 

Construção da nova sede

Algum tempo depois de Humaitá ter se emancipado, Roque conta que o clube adquiriu dois hectares de terra na cidade para edificação da nova sede. “O time ficou de três a quatro anos instalado lá embaixo”, confirma Roque. A chácara foi adquirida de uma senhora chamada Maria Groth. A aquisição se deu graças à contribuição mensal dos associados e lucro de festas realizadas.

A construção do campo não foi tarefa fácil. “Pra começar não tinha máquina na época”, lembra Roque. O terreno adquirido era uma roça, cercada por mato. “Arrancava toco tudo manual e com picareta.” A paisagem da época era de muitas áreas verdes no município. Uma esteira que trabalhava na estrada que liga Humaitá à Boa Vista do Buricá (BR-472) foi requisitada para auxiliar na terraplanagem do campo. O trabalho foi realizado em um domingo.

A implantação do gramado, no entanto, rendeu um capítulo à parte. A primeira semeadura da grama não vingou, pois “não existia adubo e nem calcário, aí veio uma seca e se foi tudo”, recorda Roque. A solução encontrada foi plantar mudas da grama. O trabalho realizado num dia chuvoso contou com o auxílio de um arado puxado a cavalo. A ferramenta servia para abrir as vergas. Um grupo vinha logo atrás e implantava as mudinhas.

Por dois anos o clube atuou no potreiro da propriedade do pai de Roque, próximo ao Parque de Rodeios, a fim de que o gramado recém-plantado se desenvolvesse. Após o período, por volta de 1963, o Grêmio voltou a mandar os jogos em sua sede oficial. O campo ganhou traves de madeira, um cercado de tábuas e um sobrado. “O sobrado tinha dois pisos em cima para o pessoal assistir”, complementa Roque. A sede não contava com água nem luz instaladas.

 

 

Os torneios de um dia só

Na primeira década de atividade no clube havia poucos oponentes dentro do município. Roque conta que era necessário se deslocar para outras cidades, e até regiões, para disputar amistosos ou torneios. “Nós jogávamos contra o Tupi de Crissiumal; Onze de Ouro de São Martinho; Ouro Verde de Coronel Bicaco; Grêmio e Internacional de Santo Augusto; Juventus, Minuano e Missioneiro de Três Passos, isso era time, não era porcaria”, empolga-se Roque. Ele ainda recorda de adversários como o Nacional e o Flamengo de Horizontina, Avante e Cruzeiro de Boa Vista do Buricá, Gaúcho de Bela Vista, Gaúcho de Braga. Segundo Roque, uma das maiores façanhas do clube foi ter viajado à Argentina para disputar um amistoso.  

Os torneios reuniam equipes da região, que disputavam a taça em confrontos realizados em um único dia. A inauguração do novo campo do Grêmio reuniu 23 equipes, distribuídas nas categorias A e B. “Jogavam só uns minutinhos. Se empatava logo ia para os pênaltis e outros já estavam jogando”, relata Roque. As penalidades eram disputadas numa trave colocada ao lado. Enquanto isso, duas novas equipes travavam outro confronto no campo. Os torneios normalmente eram realizados no verão, período em que os dias são mais longos.

 

Campeonatos amadores

A década de 1960 também ficou marcada por uma competição estadual organizada pela Federação Gaúcha de Futebol. O Campeonato Amador de Futebol de Campo movimentava equipes da região. Nesse período Luiz Nelson Schmatz, mais conhecido como Bugio, iniciava sua caminhada no esporte humaitense. As primeiras participações dele como lateral direito no time do Grêmio datam de 1965, exatamente na época em que o time disputou o amador.

O Grêmio participou do Estadual Amador até início da década de 1970. “Na Copa de 1970, o Brasil jogava de tarde e nós tinha que antecipar os jogos do amador para de manhã”, observa Bugio. O Grêmio nunca conquistou um título da competição, o mais longe que viajou foi até a região de Iraí e Seberi. Segundo Bugio, a competição nunca empolgou muito o torcedor. O estádio não lotava. Além disso, ele conta que a arbitragem era de Ijuí e cobrava um valor elevado dos clubes participantes.

As despesas se tornaram maiores que as receitas e as finanças entraram no vermelho. Bugio considera que a participação nos amadores contribuiu para a crise financeira que, mais tarde, resultou na mudança para Associação Humaitá de Esportes.

 

 

Atletas que se destacaram

Alguns dos atletas que participaram dos primeiros times do Grêmio foram Valdemário Fell, Círio Hoffmann, Alberto Rohden, Romeu Schafer, Irineu Reis, Natalício Guerrard, Inácio Baucker, João Carlos Pignatare, Paulo Prates, Nativo Hoffmann e Chiquinho Vargas. Da turma, somente Roque e Valdemário ainda permanecem em Humaitá. A dupla se encontrava todas as quintas-feiras para treinar. Roque comenta que os atletas que tinham disponibilidade sempre participavam.

Roque Schuster se envolveu com o futebol desde os seus 15 anos de idade. Zagueiro nos tempos de Grêmio, depois meio-campo do time do Tamoio. Um dos seus pontos fortes era o arremesso lateral. Ele mesmo conta que em cobranças no ataque sempre conseguia colocar a bola dentro da área e criar alguma situação de gol. 

O zagueiro nunca galgou os principais cargos na diretoria, mas era considerado uma liderança dentro e fora de campo. Com ele nos jogos o time dificilmente se envolvia em confusão. Roque jogou pelo Grêmio até meados de 1970. Depois que se casou, participou menos do esporte. No entanto, ele atuou pelos veteranos até meados dos anos 2000. O corpo acusou a idade e ele precisou abandonar o futebol. Não fosse isso, talvez ainda hoje, aos 75 anos, poderia estar batendo bola nos campos da região.

Bugio fez parte da segunda geração de atletas que defendeu as cores do Grêmio. No período em que Roque se despedia, Bugio dava seus primeiros passos no time. A principal característica do jovem era a marcação firme e imposição física. Como destaques no período em que jogou com a camisa do Grêmio, ele ressalta os irmãos Lorenzon: Zeca, “Preto” e Otavinho. Bugio afirma que o centro avante Otavinho foi o melhor jogador que ele já viu jogar no município. Com força física e técnica apurada, Otavinho se destacou com a camisa do Grêmio no início dos anos 1970.

 

Fim de um ciclo, início de outro

Em 1975, uma crise financeira assolou as equipes da cidade. Tanto Grêmio como o Internacional passavam por dificuldades. Diante do cenário, o então prefeito Eugen Rodolfo Kreher propôs unificar as duas equipes e criar a Associação Humaitá de Esportes. Segundo Bugio, a justificativa da prefeitura era concentrar a distribuição de recursos ao esporte. “Ele exigiu aquela particularidade para que os outros times não cobrassem o auxílio na infraestrutura”, comenta.

A diretoria do Grêmio concordou com a proposta, os membros do Internacional não aceitaram os termos do acordo.  Com isso, o Grêmio Esportivo de Humaitá passou a se chamar Associação Humaitá de Esportes. A equipe se transformou num selecionado do município e a partir daí representou Humaitá em competições regionais.

Uma nova fase se iniciava. Os detalhes deste novo ciclo em breve será divulgado aqui no camisadez.net.

 

*Texto: Thomás Silvestre / Camisa 10


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