A transformação pelo conhecimento

29/06/2015 10:15

Da sala de aula para o campo de futebol. Saiba como começou a Sociedade Esportiva e Recreativa Juventude Avante, de Boa Esperança

 

A sala de aula foi o lugar onde tudo começou. Um professor e dezenas de jovens dispostos a colar o primeiro grau do ensino fundamental. O professor era o senhor Darci Habitzreuter. Dentre os alunos estava Nestor Schlindwein. A ideia partiu do professor. O nome também. Ao vislumbrar a sala cheia de jovens em busca de conhecimento, ele não pestanejou: o nome do clube será Juventude Avante! Nestor e todos os estudantes ali presentes ergueram os braços em aprovação.

Assim iniciava a trajetória da Sociedade Esportiva e Recreativa Juventude Avante de Boa Esperança. O clube que conquistou cinco títulos municipais de Humaitá é um dos poucos que ainda mantêm atividades esportivas durante todo o ano.

 

As primeiras partidas de futebol do Juventude Avante datam de 1969. Quem garante é o agricultor Pedro Nestor Schlindwein. “Era mais ou menos nessa época, porque em 1971 eu fui pra Porto Alegre fazer teste e o time já existia” – enfatiza. Nestor, como é conhecido, tinha 13 anos quando o clube foi criado. Segundo ele, antes da fundação, os atletas da comunidade atuavam pelo Oriental de Lajeado Boi. A iniciativa do professor Darci, que ministrava aulas no extinto Curso Supletivo, motivou a fundação de uma equipe em Boa Esperança. “Nós não queríamos mais participar lá embaixo, estava todo mundo disposto a assumir um time novo” – comenta Nestor.

O agricultor de 59 anos se recorda que doze famílias mobilizaram esforços para comprar a terra e construir a sede do clube. Segundo ele, cada sócio-fundador doou Cr$ 100 mil (Cruzeiros). Participaram da fundação Jacó Beno e Arcênio Ernesto Schlindwein, Eldo e Arno Dietrich, Cassildo e Darci Habitzreuter, Lucedo Schuster, Almiro Strieder, Aloísio Hergessel, Alcido Schipz, Ernesto Schmitz e Arnoldo Dietrich.

A sociedade esportiva adquiriu uma área de seis mil metros quadrados de Rodolfo Dreher. Um desentendimento entre a família do então presidente, professor Darci, e os demais associados, retardou a construção da primeira sede. Conforme Nestor, a intenção de Darci era juntar o clube de futebol com uma sociedade beneficente que existia na comunidade. No entanto, esse não era o desejo dos demais associados. A sociedade beneficente, por fim, ficou com a área de terra, mas não com o time.

Jorge Schlindwein, primo de Nestor, possui 47 anos e ainda atua como atleta do clube. Segundo Jorge, entre 1970 e 1974 o Juventude Avante alugou um potreiro na propriedade de Arnoldo Weis onde mandou suas partidas. O jogo inaugural foi em Duas Esquinas, Nova Candelária, contra o 1° de Maio. Nestor tem recordações daquela ocasião. “O caminhão era grande, mas precisou ir duas vezes de tanta gente que tinha, não sei se não passavam de 100 pessoas”, lembra. Jorge era um menino na época e recorda que só poderiam ir junto rapazes com mais de 15 anos nos jogos fora de casa. 

 

Retomada do campo

Em 1975, a sociedade readquiriu a área e iniciou o trabalho de construção da sede. “No início o campo era de chão vermelho”, comenta Nestor. Durante um meio ano os atletas suportaram a situação. “Mas daí não dava mais, nós caía e tinha uma “casca” de cima até embaixo”, lembra, ao se referir aos machucados provocados pela terra nua.  A fundação foi oficializada no dia 15 de janeiro de 1975, conforme registra um quadro exposto na sede do clube.

O Juventude Avante parou de jogar em casa por alguns meses para implantar o gramado. “A gente avisava numa sexta-feira de tarde que ia trabalhar no campo e isso vinha uns 50 pra ajudar” – comenta Nestor. A primeira semeadura não rendeu um gramado bom. Segundo ele, tinha muito inço. “Pegamos as foices e cortamos tudo fora.” A solução encontrada foi buscar mudas de grama nos potreiros e transferir para o campo.

 

 

A estrutura inicial do clube contava apenas com uma copa, porém bem simples. “Eram quatro postes com um cercadinho de tábuas em volta“ – lembra Jorge. Inicialmente o clube não possuía congelador. Ele afirma que na copa tinha um cocho de concreto onde a bebida era acondicionada na véspera dos jogos. Dois anos mais tarde, a sociedade construiu um “galpãozinho” pequeno. “Do lado onde batia a bola era zinco e do outro era telhas”, lembra Nestor. A segunda edificação abrigava a copa e um pequeno vestiário de 8x5 metros. “Primeiro era chão batido e depois colocamos britas” – comenta.

Em 1978, o Juventude Avante iniciou a construção de um dos maiores galpões da época para uma sede esportiva. “Até a prefeitura de Crissiumal trouxe uns times ali pra ver o nosso galpão”, lembra Jorge. A construção possui dimensões de 30x15 e foi uma das primeiras na região a contar com cancha de bochas coberta.

Com o apoio da prefeitura de Humaitá, o clube construiu um alambrado no ano de 1980. Naquele período a administração municipal auxiliou os clubes do município na doação da cerca para os alambrados. Cada clube precisou se encarregar em adquirir os postes.

 

 

Geração vencedora

A partir do ano de 1985, o Juventude Avante começou a alcançar posição de destaque no cenário municipal. “Começamos nessa época uma fase boa do time, em 1985 e 1986 ficamos em terceiro lugar”, comenta Nestor. No ano seguinte, em 1987, o Juventude conquista seu primeiro título municipal. A conquista do primeiro título veio após vitória sobre o Tamoio de Herval Grande na finalíssima. O placar foi de 4 a 0, com dois gols cada dos irmãos Hélio e Egomar Heinecken, reforços oriundos de Crissiumal naquela competição. 

No início dos anos 1990 a equipe empilhou sucessos no campeonato. O time sagrou-se campeão em 1990, 1992, 1993 e 1995. Foram presidentes nas conquistas: Jacob Beno Schlindwein, Otacílio Habitzreuter, Beno Scpiz, Valmir Schuster e Pedro Nestor Schlindwein. Segundo Nestor, o grupo vencedor foi muito unido. “A gente jogava há tempos junto, com amor a camiseta”, comenta.  

A sequência vencedora foi conquistada contra o Tamoio, pela segunda vez; Olarias, uma vez; e Alvorada, dois títulos. O Juventude ainda faturou a Taça de Campeão dos Campeões e Campeão do Município, torneios promovidos na década de 1980.

 

 

Envolvimento familiar

Nestor foi o primeiro dos cinco irmãos a atuar pelo Juventude Avante. O sócio-fundador Jacó Beno Schlindwein é pai de Nestor e influenciou os demais filhos a participarem do clube. Mais tarde, também jogaram os irmãos Lécio, João, Egídio e Renato. Arcênio Ernesto Schlindwein, irmão de Jacó, também foi um patriarca a influenciar seus seis filhos homens. Jorge foi um deles. A geração ainda contou com os irmãos Francisco, Vitório, Rudi, Adair e Ademir.

O início na posição de goleiro teve uma motivação curiosa na trajetória do Nestor. A opção não foi técnica. “Quem ia atacar não precisava pagar passagem”, pontua. Segundo ele, era um dinheiro que sobrava para tomar refrigerante, por isso foi para o gol. A partir dos 24 anos, ele deixou a meta para atuar na linha.

Jorge começou como lateral esquerdo no time B ainda na adolescência. Depois, ele se tornou primeiro volante no time principal e permanece no posto até os dias atuais. Nestor explica que os pais não eram fanáticos pelo futebol, mas gostavam de apoiar seus filhos. “Tinha gente que nem queria saber de futebol, mas no fim de semana estavam no campo” – comenta.

Aos 59 anos, Nestor voltou a atuar como goleiro. Porém, há oito anos defende as cores do Esporte Clube Alvorada de Lajeado Alvorada. Ele reside na comunidade e decidiu também colaborar com a equipe local. O meio-campista Jorge, aos 47 anos, é uma das lideranças do Juventude Avante que disputa os campeonatos varzeanos. O atacante Ademir e o goleiro Ari Alles são remanescentes da geração multicampeã nos anos 1990.

 

 

A fortaleza defensiva quase intransponível se tornou a marca do Juventude Avante. “A nossa estratégia é marcar em cima e não deixar “eles” fazer as jogadas”, comenta Jorge. A sintonia é garantida pela base formada por irmãos, primos e vizinhos. “Não lembro de nós ter levado mais do que dois gols num jogo”, recorda.

Nestor exalta o preparo físico que os atletas mantêm e explica como eles o obtêm. “O nosso treino era na roça, lavrava com os bois até às três horas e depois ia jogar bola”, reforça. Após as partidas não havia tempo pra comemorar. “Depois voltava pra casa e ia tratar os porcos ainda.”

 

 

A Sociedade Esportiva e Recreativa Juventude Avante de Boa Esperança mantém as atividades durante o ano todo. Em média a cada duas semanas o clube promove um amistoso. Segundo Jorge, a maior dificuldade é encontrar adversários próximos, em função da diminuição das equipes na região.

O Juventude Avante, entretanto, se mantém vivo em meio a um cenário perverso. “O nosso problema ao montar um time para o campeonato é ter que deixar um ou outro de fora, porque tem demais”, comemora Jorge. Participam atualmente atletas, e principalmente jovens, de localidades como Duas Pontes, Lajeado Boi – Crissiumal e do perímetro urbano de Humaitá.

Ele reconhece, porém, dificuldades em acompanhar o time. “A gente tem que tirar leite das vacas, não é fácil.” Contudo, não o suficiente para desmotivar o meio-campista. Os anos passam, mas a juventude segue sempre avante em Boa Esperança. 

 

*Texto: Thomás Silvestre / Camisa 10

*Obs: Mais fotos e detalhes das equipes campeãs pelo Juventude serão divulgados em breve.


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